
É interessante como o passar dos anos, e as transformações que esse passar nada inócuo causam em nós, fazem como que nossa visão diante de uma mesma situação se modifique.
Lembro-me que durante meu segundo grau tudo, absolutamente tudo, o que era dito em sala de aula era anotado, "ruminado", "mastigado". Nenhum exercício, nenhum comentário ficava para trás. Sentia-me no controle do conhecimento, já que este era passível e possível de ser absorvido. O mundo era "abraçável".
Mas este mundo desmoronou quando eu entrei na faculdade. Fui tomada de uma angústia monstra, pois conhecer era agora sobrehumano!!! Nem se eu vivesse 1000 anos eu conseguiria absorver tudo o que precisava ser absorvido ( aos 17 anos o-tudo precisa ser absorvido). Sim, "saber tudo" havia deixado de ser plausível!!!
Essa conclusão me entristeceu profundamente. Acreditem: não havia mais como abraçar a imensidão!!! E ela era bastante arredia: me encarava, me desafiava, me confrontava, me inquietava.
Dez anos se passaram. E hoje me pego sentada na mesa da minha sala, rodeada de vários livros, inclusive alguns da faculdade. Os "portais" para a imensidão ali: palpáveis, tangíveis. Mas e a angústia? Procuro-a e não a acho!!! Teria eu crescido o suficiente e o mundo tornou-se novamente "abraçável"??
Não! Os horizontes, do conhecimento e da vida, são cada vez mais amplos e hoje isso me alegra!!
"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."
Carlos Drummond de Andrade


